A vez das prisioneiras

Ana Motta Rabelo

Graduada em Relações Internacionais que decidiu fazer jornalismo para se dedicar ao jornalismo internacional, acabou se deparando com design e história da arte. Hoje, gosta de ler e escrever sobre diversos temas, desde que tenham uma boa história para contar.

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Com Prisioneiras, lançado em 2017, pela Companhia das Letras, Drauzio Varella encerra sua trilogia literária sobre o sistema carcerário brasileiro. O médico oncologista, conhecido popularmente pelas reportagens de saúde pública veiculadas na TV Globo, também é um escritor premiado desde a sua estreia: Carandiru ganhou o Prêmio Jabuti, em 2000, na categoria Livro do Ano de Não-Ficção, e foi adaptado para o cinema pelo diretor Hector Babenco.

Ao contrário de Carandiru e Carcereiros, que contam histórias de presos e funcionários na extinta Casa de Detenção de São Paulo, o Carandiru, Drauzio nos apresenta o universo das mulheres encarceradas, relembrando os últimos onze anos de atendimento clínico na Penitenciária Feminina da Capital.

Dráuzio Varella no Conversa com Bial: “A sociedade passa o tempo todo tentando controlar o comportamento da mulher”

Em Prisioneiras, a estrutura narrativa é semelhante às demais publicações, com capítulos breves e a já conhecida forma de apresentar seus personagens. O texto, que remete à crônica, de linguagem leve, com diversos diálogos, repletos de apelidos e expressões de grupos da periferia, também aparece nesse volume. Para os leitores assíduos do médico paulistano, a repetição da velha maneira pouco importa. O conteúdo escrito com maestria faz com que nos atentamos ao tema proposto no título: as prisioneiras.

Enquanto nos dias de visita no Carandiru, Drauzio presenciava filas quilométricas próximas ao presídio, na penitenciária feminina, o abandono familiar era constante. Mas as entradas vazias escondem as particularidades percebidas pelo autor. Narrativas de realidades, desconhecidas fora das grades, são apresentadas de uma maneira crítica, sem um julgamento moral. A vida das presas, com seus valores, códigos e sexualidade são contadas pelo olhar do médico experiente. Histórias de violência doméstica e confissões de mulheres que entraram para o mundo do crime por conta de seus parceiros.

A facção Primeiro Comando da Capital (PCC) também aparece em diversos capítulos, trazendo pontos de vista valiosos para quem quer compreender mais sobre a tão discutida violência brasileira. Em especial, a análise das leis, que fazem com que as mulheres cumpram penas por pequenas infrações e acabam deixando filhos abandonados ou aos cuidados de terceiros, é ao mesmo tempo angustiante e enriquecedora.

Um estudo do sistema carcerário brasileiro, ainda de maneira literária, Prisioneiras é o desfecho impecável de um trabalho que pode ser considerado de utilidade pública.

a vez das prisioneiras
Ficha Técnica:
Livro: Prisioneiras
Autor: Drauzio Varella
Páginas: 296
Editora: Companhia das Letras
Lançamento: 10/07/2017

***** (5 estrelas)